1 Março – 28 Março

Exposição de Christine Enrègle “Oliveira, linhas de vida”

Galeria Santa Maria Maior – Rua Madalena 147, Lisboa

Os desenhos apresentados na Galeria Santa Maria Maior resultam de um processo artístico desenvolvido por Christine Enrègle ao longo de várias residências realizadas desde 2022, no Pátio dos Artistas, em Lisboa. Executadas a carvão sobre tela de algodão, estas obras de grande formato têm como ponto de partida a oliveira centenária do Rossio — uma presença silenciosa e persistente, enraizada no tecido histórico da cidade.

Situada no Largo de São Domingos, esta oliveira inscreve-se num território profundamente marcado pela memória. Integra um conjunto memorial que convoca o massacre de Judeus ocorrido em 1506, o pedido público de perdão pronunciado séculos mais tarde e a afirmação do carácter cosmopolita e tolerante de Lisboa. Enquanto organismo vivo, a árvore afirma-se como contraponto à violência histórica, sustentando um espaço onde a lembrança exige reconhecimento, escuta e responsabilidade.

Desde a Antiguidade, a oliveira ocupa um lugar central no imaginário simbólico do Mediterrâneo. Associada à sabedoria, à vitória e à promessa, atravessa a mitologia grega e a tradição bíblica como sinal de continuidade e de paz possível. No Rossio, essa herança simbólica concentra-se numa imagem simultaneamente frágil e resistente, onde o tempo histórico e o tempo natural se cruzam.

O trabalho de Christine Enrègle inscreve-se neste campo de tensões entre história, mito e experiência sensível. Os desenhos recusam a representação descritiva da árvore para se aproximarem da sua presença material e rítmica, da sua capacidade de resistência e permanência. O carvão — matéria instável e profundamente ligada ao gesto — introduz um tempo lento e reiterado, no qual o olhar se aprofunda e o traço se sedimenta.

O percurso expositivo propõe uma leitura processual deste conjunto de obras, revelando-as como espaços de suspensão e de escuta. Mais do que imagens, estes desenhos configuram lugares de refúgio e de memória ativa, onde a resiliência se afirma como força ética e poética. A oliveira surge, assim, não apenas como motivo, mas como sinal: de uma paz sempre por construir, de uma reconciliação exigente e de uma esperança que persiste.

 

 

Christine Enrègle, artista plástica, doutorada em artes plásticas pela universidade Paris 1, Panthéon-Sorbonne, vive e trabalha entre Paris e Lisboa. Primeira artista em residência no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, desde 2017 realiza regularmente residências artísticas na França e em outros países, especialmente nos diferentes jardins botânicos de Lisboa.

Em 2020, apresenta os seus desenhos numa exposição individual na Sociedade Nacional de Belas Artes e ganha a menção honrosa no Salão dos sócios 2020, no âmbito do programa “Lisboa Capital Verde Europeia”. Em 2022 realiza mais duas exposições individuais em Lisboa, programadas no âmbito da Temporada Portugal-França: na Sociedade Nacional de Belas Artes e no Museu Nacional de História Natural e da Ciência, Universidade de Lisboa.

Em 2023 e 2024, é acolhida em residência no Centro Português de Serigrafia – CPS, em Lisboa. De setembro de 2024 a junho de 2025, realiza uma residência no âmbito do programa «Arts et Science» no Muséum national d’Histoire naturelle de Paris, onde alguns dos seus desenhos serão apresentados em 2026. Em 2024, ela é finalista no Luxembourg Art Prize e recebe seu Certificado de mérito artístico. Ela também participa de exposições individuais e coletivas na França, Brasil, China e Coreia do Sul.

Sua abordagem artística é orientada para a prática da paisagem como material, cujos elementos coletados, deslocados e transformados constituem a matriz das instalações realizadas no Brasil entre 2002 e 2004.

Desde 2017, ela privilegia o desenho a carvão sobre tela de algodão e está interessada na metamorfose das plantas através do processo de crescimento da árvore. Estes desenhos são vividos como o resultado (o «precipitado») de um encontro entre o vegetal e o humano, que revelam as suas formas orgânicas. Eles questionam o lugar dado ao vegetal em nossas sociedades ocidentais e o modo de relação que mantemos com ele.

Depois de ter trabalhado nos diferentes jardins de Lisboa a partir do Ficus macrophylla encontrada pela primeira vez no Brasil, volta-se para a figura da oliveira que atravessa os séculos, as culturas e as religiões na Europa e no Médio Oriente.